sexta-feira, 6 de junho de 2014

Sem beijos, sem próxima.

   Incrível como tudo muda. Incrível como a vida segue o rumo que quer, quando quer, e como quer. Incrível essa capacidade humana de adaptação.

Incrível.

   Volto aqui e vejo palavras e dores, sofrimentos tão superficialmente profundos. Como a vida pode ser cruel com uma menina de 15 anos. Como tudo pode parecer gigante quando não temos noção de nós mesmos. Gosto dessa fase que já passou, dessa antiga necessidade de precisar buscar palavras belas para expressar os sentimentos mais medíocres que podem conter em um ser humano sem problemas reais. Lutei com as armas que tinha. 

     Se ingenuo foi o meu eu aos 15, quão prepotente me tornei agora, aos 20? Achando que tudo sei, que posso surgir apontando erros e caçoando de lembranças e sentimentos que até pouco tempo me saturavam. 20 anos de uma vida bem vivida, 20 anos de ilusórias certezas sobre tudo saber da vida. 

   E somente 4 anos nos separam. Quem fui e quem sou. Quantos serão necessários para me cortar de quem serei.

   Serei a melhor e o que mais sei de mim, e surgirei para me julgar e desautorizar até que uma melhor versão venha me por no meu lugar.


Sem beijos, pois perdi o costume de distribuí-los à granel. 

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Salgueiro


     Sinto as pedras me rasgando os pés sensíveis, desacostumados ao andar descalço. As mãos apertadas, enlaçadas, os dedos que se buscam e se torcem. Juntas abertas, por onde o sangue corre, por onde as veias moram.  Ouvir os gritos trazidos pelos ventos agudos, que me cortam a face virgem, trazem a incerteza cabível a cena. 

       Tirou-me a calmaria sem pedir perdão, sem ousar, ao menos, um “com licença”. Como me ignorar em meio a grandes transições? Tudo parece maior, e certamente, melhor do que eu. Como se pudesse assolar, essa carcaça vencida sonha com a liberdade, incerta, como só eu consigo ser.  

       Olhei-me ao tentar lançar voo, e me vi com as pobres asas cortadas. O seu simulacro me lançava à mente, uma força ínfima que nunca me pertencera. Agora te pergunto, pai: Quem cortou fora as asas da ideia que eu tanto apreciava em ter? 

Beijos, até a próxima.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Saudades Incontidas

     Se esta fosse uma carta, eu começaria pedindo desculpas. Desculparia-me insistentemente por ter crescido, por ter aprendido a andar e falar, por ter perdido o medo do escuro, e de todas aquelas outras coisas abstratas, das quais você costumava me proteger, e que nos unia de uma forma inimaginável.

    Que me perdoem todos os meus outros amores, mas este amor que ostento por ti, é desmesurado. Essa falta que me faz quando parte, é insaciável; esse medo de perder-te um dia, de surpresa, é o meu maior martírio.

    Sinto falta daquela época em que os abraços eram mais frequentes. Sinto falta daquelas manhãs chuvosas em que você me acordava com afagos, e não me deixava levantar até dizer o quanto eu te amava. Sinto falta de quando éramos apenas você e eu, quando eu bastava a ti, e você a mim.

    Se meus olhos não estivessem vermelhos, incontidos em lágrimas, e minha face irrefutavelmente infeliz, eu me atreveria a ir acordá-lo no quarto ao lado, e dizer o quanto eu o amo.

    Quanto mais o tempo passa, mais árdua se torna a convivência, e eu até entendo o porquê. Estou involuntariamente deixando para trás uma daquelas grandes coisas que unem um pai e sua amada filha, o cuidar. Não quero me soltar de suas amarras, não quero cortar o cordão umbilical, não, ainda é cedo demais, tenho medo de nunca mais voltar. Infelizmente a vida está tratando de fazer isso por mim, nossos destinos estão sendo escritos separadamente. Sei que chora ao saber que um dia partirei, e que ainda restam em mim, poucos, e até imperceptíveis rastros, daquela menina que você costumava ensinar sobre a vida.  Às vezes, em momentos de insensatez, questiono o seu amor por mim, da mesma forma como tenho certeza que fazes. Quanto mais velha me torno, mais vontade tenho de regressar àqueles bons tempos em que eu ainda era a sua menina.

    Ah meu pai, você está ficando velho e ranzinza, e eu adulta e independente. E quanto mais o tempo passa, maior se torna essa irrevogável lacuna entre nós. Às vezes sinto vergonha ao expressar estes sentimentos contidos.  Como pode? Como posso envergonhar-me de dizer àquele que me cuidou com finura durante toda a vida, que eu o amo? Não sei como, só sei que é.

    Sinto da mesma forma, que há algo em mim que o transtorna, algo em mim que o machuca, sinto que quando ele me olha, algo é aberto, feridas talvez. Acredito que trago a sua memória, a dolorosa lembrança de minha mãe, a mulher que ele tanto amou, a ponto de confessar isso diante de Deus, em sagrado matrimônio. Ao me olhar ele se recorda daquela promessa que fora feita, e não cumprida, aquela em que ele disse na frente de homens e anjos, que a amaria, e a cuidaria na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, por todos os dias de sua vida.

   
 Às vezes me torturo, e tento imaginar quão grande seria a minha dor, se um dia acordasse e soubesse que ele partiu para sempre. Mais do que triste, me sentiria culpada, culpada por termos nos afastado por tanto tempo, mesmo estando tão próximos um do outro.

    Não se preocupem em tirar grandes conclusões deste texto, pois tudo isso não passa de meros desabafos íntimos.

Beijos, até a próxima.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Deixo-me Viver


    Deixo-me ser mel, lentamente colhido e fugazmente acabado.  Deixo-me ser sonho, conquistando o mundo e perdendo-o ao abrir dos olhos.  Deixo-me ser beijo, que por um segundo trás calma. Deixo-me ser lágrima, que alcança a liberdade com a derrota da alma.

    Entrego-me a vida como cachoeira que escorre lenta por entre as pedras, como canto desritmado de pássaros solitários, como gota de chuva virgem e insossa que se arrebenta junto à janela. Deixo-me ser sangue, ser vento, pássaro, ou qualquer outrem que tenha liberdade de correr sem pudor.

    Quero que me faça rir, não para o meu prazer, mas para o seu. Quero trazer algo de bom, ou ao menos levar embora algo de mal que esteja fincado em ti. Quero espantar os males que te assombram, com um grito desvairado a plenos pulmões, e depois te tomar em meus braços e embalá-lo ao sono com belas canções. Quero que me mate todos os dias, e me faça acordar e renascer.

     E que as chuvas sejam traiçoeiras, e as pessoas também. Que me seja dada a benção de encontrar todos os dias motivos para lutar. Rogo aos céus, para que não caia sobre mim, o infortúnio de ter uma vida banal. Que a mediocridade se esvaia junto com todos os outros desafios vencidos. Que me seja dado um campo verde e vasto, e pernas longas para correr.

    Liberto-me de todas as amarras, e deixo-me ser como folhas secas que caem da árvore velha. E que venha o vento soprar sobre mim, daí então, deixo-me voar, e quem sabe cair.

Beijos, até a próxima.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Mariposas

     


Não consigo entender a escuridão, não consigo compreendê-la, nem tampouco acostumar-me com ela. Busco a luz de uma maneira tão desesperada, que me esqueço por que ela momentaneamente havia se apagado. Tenho medo dos meus óculos embaçarem, ou da noite chegar; gosto do dia, gosto dos olhos abertos. É necessário que eu aprenda a permanecer na escuridão, sem ter que buscar desesperadamente qualquer saída ou feixe de luz.

    É tão mais fácil se banhar de gloriosas lembranças passadas, ao ter que encarar a rispidez e inconsequência das expectativas futuras. Quem me dera poder viver o mesmo segundo mais de uma vez. Quem me dera poder retroceder o relógio e fazer de meus constantes erros apenas meras aprendizagens, treinamentos, distrações. Quem me dera o caminho não fosse múltiplo, quem me dera ser a dona da árvore mais alta, e de lá de cima poder ver a tudo e a todos; ter visão de águia ter a certeza de todas as veredas. Talvez se fosse dona de uma sabedoria gigantesca e de uma alma menos humana, pudesse ter mais certezas do que dúvidas. Agradeço a Deus todos os dias por não ter nascido cega, pois se tenho medo do que não consigo ver de olhos abertos, morreria se estivesse para sempre com os olhos fechados.

    Há uma Luz que me guia, uma Luz que me aquece, uma Luz que se acende e me mostra o caminho, mas as vezes Ela se esconde e pede para que eu vá de olhos fechados; Ela me testa, mas ainda sou mariposa demais, não consigo ficar muito sem o clarão que me cega, ainda sou como uma criança que está aprendendo a andar e tem medo do grande escuro da vida, das grandes incertezas do futuro.

    Sempre busquei a coragem, mas às vezes é tão necessário temer. O que seria de mim sem medo, o que seria de mim sem minhas incertezas? Se fosse dona da sabedoria que só é atribuída a Ele, do que me adiantaria viver? Do que me adiantaria estar nesse mundo, já sendo conhecedora de todos os mistérios? O escuro me amedronta, mas se tudo fosse demasiadamente claro, me arderiam demais os olhos. Como saberia quão boa é a luz se nunca tivesse permanecido na penumbra? Como saberia quão quentes são os raios de sol, se eu nunca tivesse experimentado um pouco das noites gélidas? Do que me adiantaria ter milhares de perguntas se me fossem dadas de bom grado todas as respostas?

    O que seria do ser humano sem todas as suas incertezas, incapacidades e inconsequências? O que é a vida se não uma incessante busca por respostas? Sou apenas mais um pedaço de carne ambulante, que anda e que chora, que ri, que ama e que teme. Sou apenas mais um ser imperfeito, dentre outros muitos venho por ser às vezes o mais impávido, e noutras, o mais covarde; mas acima de tudo, sou um ser errante, que assume a sua incapacidade e se coloca em seu humilde lugar como mera criatura decrépita. Reconheço as minhas fraquezas, e orgulho-me delas, por ver que estou mais humana do que nunca, e me sinto feliz assim, pois o homem foi uma criação perfeita de Deus.

Beijos, até a próxima.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

A Batalha

Então, como se mais nada pudesse ser feito, a boca calou, e corpo começou a falar. Uma foice penetrara em minh’alma, dilacerando toda a visão equivocada que eu mantinha sobre a referida situação, no momento em que suas lágrimas frias e voláteis, escorreram rudemente pelo meu ombro. A garganta havia secado, e o orgulho evaporado; tornou-se árduo engolir saliva. O angustiante nó que estava entalado em minha garganta, não deixou que palavra alguma fosse proferida. Naquele instante, tudo perdera o seu sentido. Sentia-me em uma guerra, sobre a qual, encontrava-me armada até a cabeça; e me via estagnada em meio a todos os corpos tombados no chão ao meu redor. Coberta de sangue, e ferida pela deflagrante guerra, pude enfim constatar, que aquela era uma batalha friamente desigual; que meu oponente, encontrava-se totalmente desarmado, sem proteção; Não havia notado isso anteriormente, pois minha armadura era demasiadamente rija e avultada, e acabou por tampar o buraco de meus olhos. Eu lutei, lutei para defender-me, para não me machucar, para terminar tudo aquilo, sem um fio de cabelo fora do lugar.

 Entretanto, não contara com a brandura de meu oponente. Ele não tinha lá grandes experiências em guerras; as batalhas que ele outrora perdeu, foram singelas e acabaram por não deixar intensas cicatrizes. Ele sem perceber, ingressou nessa implacável guerra, sem armas. Eu poderia tê-lo avisado de que eu era uma boa guerreira, de que já havia lutado em diversas batalhas, e que minha inexorável armadura, dificilmente cairia ao chão. Era o fim, havíamos desistido de lutar, e eu me mantinha intacta, como outrora havia planejado; todavia meu oponente estava digladiado; a dor da luta fora mais intensa, para aquele que menos havia se resguardado. Agachei-me ao lado de meu oponente, que se encontrava desolado, desabado ao chão. Sentia-me mal, por não ter me machucado tanto quanto aquele ser; por não tê-lo alertado anteriormente, dos riscos que ele poderia correr; sentia-me mal, pois nem em momentos de bonança eu vacilei e abandonei minhas armas. Senti-me mal, por ver meu oponente sem forças. Eu não esperava aquele momento; fui obrigada a arrancar a minha armadura, e jogar a minha espada e meu escuto no chão, no exato momento em que senti aquela singela gota salgada rolar por minha pele, e rasgar a minha alma.

Nada pude fazer, nada pude falar, apenas o envolvi entre meus braços cansados de lutar e dei-lhe meu ombro, e minha alma para matar. Aquelas lágrimas escorreram sobre mim, da maneira mais dolorosa possível. Chegamos ao nosso limite, ao fim do duro trajeto. Suas lágrimas, seus soluços, me fizeram sentir junto a ele, toda a dor e toda a vulnerabilidade de um ser.

E tudo se findou. Eu desisti de lutar, e entreguei-me a todo aquele frenesi de sensações. Nada mais poderia ser feito, as poucas armas que ainda restavam, foram jogadas ao chão. E eu firmemente, traí a mim mesma, e a minha inexorável força, orgulho-me muito por isso; meu coração pode chorar junto ao dele. Nada mais restava, além de lembranças e duas pessoas partilhando da mesma dor. Chegamos ao final. As palavras não mais faziam sentidos, os sorrisos acalentadores, já não mais acalentavam; a prolixidade em minhas metáforas, para facilitar o entendimento, já não mais eram entendidas; a racionalidade caíra por terra; o coração quis falar, e as lágrimas simplesmente rolaram.

A vida ensinou-me da maneira mais árdua, que não se deve ingressar desprotegida, em uma guerra, no amor. Eu aprendi, vivendo tudo isso. Infelizmente, aprendi que tenho que afiar a minha espada constantemente para não morrer no campo de batalha. Já perdi muitas guerras, já fui ferida profundamente, já levantei muitas bandeiras de rendição, entretanto nunca morri.

 E quem fora o aluno, virara o professor. Deveria tê-lo avisado, que o amor não é fácil; que um lado sempre saíra mais machucado que o outro; que relacionamentos podem ser campos de batalhas cruéis e sanguinários, onde duas almas se encontram, se amam, e se os acontecimentos não lhe forem favoráveis, se matam. Eu nunca o ataquei, nunca fui com minha lâmina afiada ao seu encontro; todavia falhei, pois nunca abaixei a guarda nem tampouco o meu escudo. Ele nunca me atacou, e mesmo assim, me defendi. Infelizmente, eu me defendi da pessoa que menos queria machucar-me; e acabei machucando-a.

A vida juntamente com o tempo tornou-me forte, revestiu meu singelo coração com uma espessa camada de racionalidade, para que por ventura, eu não viesse a padecer, caso minhas habilidades guerrilheiras fossem requisitadas. Mas eu errei. Entrei em uma guerra com alguém que era puramente e unicamente sentimento, alguém que se doou ao máximo, amou ao máximo, entregou-se ao máximo. Dei o melhor que pude, e por mais que o amor em meu peito fosse gigante e devastador, nunca me entreguei cegamente, não podia ao menos alimentar a idéia de um sofrimento novamente.

Talvez se tivesse entrado sem armas no campo de batalha, as coisas teriam tido continuidade, entretanto, o fim, se o mesmo existisse, seria demasiadamente terrífico; pois duas pessoas sem defesas tendem a morrer. Mas minh’alma não me deixou nem ao menos tentar, ela zela pelo meu bem estar, me faz egoísta. Queria ter me doado mais, mas ela não deixou. A razão impediu que todo o meu amor vaza-se para fora, por receio de eu me tornar puramente e unicamente sentimento.

No momento em que eu fitei seus olhos, transbordados em lágrimas, notei o quão e protegido do mundo externo meu coração estava.

Faz parte da vida, renovar-se. Faz parte da vida, aprender com os fatos; e talvez eu tenha aprendido demais; talvez eu tenha sido demasiadamente forte, demasiadamente racional; talvez essa seja uma defesa natural.  

Limito-me a narrar unicamente os fatos. Não ousarei, por enquanto, falar verdadeiramente sobre amor.

Beijos, até a próxima.