quarta-feira, 28 de julho de 2010

A Batalha

Então, como se mais nada pudesse ser feito, a boca calou, e corpo começou a falar. Uma foice penetrara em minh’alma, dilacerando toda a visão equivocada que eu mantinha sobre a referida situação, no momento em que suas lágrimas frias e voláteis, escorreram rudemente pelo meu ombro. A garganta havia secado, e o orgulho evaporado; tornou-se árduo engolir saliva. O angustiante nó que estava entalado em minha garganta, não deixou que palavra alguma fosse proferida. Naquele instante, tudo perdera o seu sentido. Sentia-me em uma guerra, sobre a qual, encontrava-me armada até a cabeça; e me via estagnada em meio a todos os corpos tombados no chão ao meu redor. Coberta de sangue, e ferida pela deflagrante guerra, pude enfim constatar, que aquela era uma batalha friamente desigual; que meu oponente, encontrava-se totalmente desarmado, sem proteção; Não havia notado isso anteriormente, pois minha armadura era demasiadamente rija e avultada, e acabou por tampar o buraco de meus olhos. Eu lutei, lutei para defender-me, para não me machucar, para terminar tudo aquilo, sem um fio de cabelo fora do lugar.

 Entretanto, não contara com a brandura de meu oponente. Ele não tinha lá grandes experiências em guerras; as batalhas que ele outrora perdeu, foram singelas e acabaram por não deixar intensas cicatrizes. Ele sem perceber, ingressou nessa implacável guerra, sem armas. Eu poderia tê-lo avisado de que eu era uma boa guerreira, de que já havia lutado em diversas batalhas, e que minha inexorável armadura, dificilmente cairia ao chão. Era o fim, havíamos desistido de lutar, e eu me mantinha intacta, como outrora havia planejado; todavia meu oponente estava digladiado; a dor da luta fora mais intensa, para aquele que menos havia se resguardado. Agachei-me ao lado de meu oponente, que se encontrava desolado, desabado ao chão. Sentia-me mal, por não ter me machucado tanto quanto aquele ser; por não tê-lo alertado anteriormente, dos riscos que ele poderia correr; sentia-me mal, pois nem em momentos de bonança eu vacilei e abandonei minhas armas. Senti-me mal, por ver meu oponente sem forças. Eu não esperava aquele momento; fui obrigada a arrancar a minha armadura, e jogar a minha espada e meu escuto no chão, no exato momento em que senti aquela singela gota salgada rolar por minha pele, e rasgar a minha alma.

Nada pude fazer, nada pude falar, apenas o envolvi entre meus braços cansados de lutar e dei-lhe meu ombro, e minha alma para matar. Aquelas lágrimas escorreram sobre mim, da maneira mais dolorosa possível. Chegamos ao nosso limite, ao fim do duro trajeto. Suas lágrimas, seus soluços, me fizeram sentir junto a ele, toda a dor e toda a vulnerabilidade de um ser.

E tudo se findou. Eu desisti de lutar, e entreguei-me a todo aquele frenesi de sensações. Nada mais poderia ser feito, as poucas armas que ainda restavam, foram jogadas ao chão. E eu firmemente, traí a mim mesma, e a minha inexorável força, orgulho-me muito por isso; meu coração pode chorar junto ao dele. Nada mais restava, além de lembranças e duas pessoas partilhando da mesma dor. Chegamos ao final. As palavras não mais faziam sentidos, os sorrisos acalentadores, já não mais acalentavam; a prolixidade em minhas metáforas, para facilitar o entendimento, já não mais eram entendidas; a racionalidade caíra por terra; o coração quis falar, e as lágrimas simplesmente rolaram.

A vida ensinou-me da maneira mais árdua, que não se deve ingressar desprotegida, em uma guerra, no amor. Eu aprendi, vivendo tudo isso. Infelizmente, aprendi que tenho que afiar a minha espada constantemente para não morrer no campo de batalha. Já perdi muitas guerras, já fui ferida profundamente, já levantei muitas bandeiras de rendição, entretanto nunca morri.

 E quem fora o aluno, virara o professor. Deveria tê-lo avisado, que o amor não é fácil; que um lado sempre saíra mais machucado que o outro; que relacionamentos podem ser campos de batalhas cruéis e sanguinários, onde duas almas se encontram, se amam, e se os acontecimentos não lhe forem favoráveis, se matam. Eu nunca o ataquei, nunca fui com minha lâmina afiada ao seu encontro; todavia falhei, pois nunca abaixei a guarda nem tampouco o meu escudo. Ele nunca me atacou, e mesmo assim, me defendi. Infelizmente, eu me defendi da pessoa que menos queria machucar-me; e acabei machucando-a.

A vida juntamente com o tempo tornou-me forte, revestiu meu singelo coração com uma espessa camada de racionalidade, para que por ventura, eu não viesse a padecer, caso minhas habilidades guerrilheiras fossem requisitadas. Mas eu errei. Entrei em uma guerra com alguém que era puramente e unicamente sentimento, alguém que se doou ao máximo, amou ao máximo, entregou-se ao máximo. Dei o melhor que pude, e por mais que o amor em meu peito fosse gigante e devastador, nunca me entreguei cegamente, não podia ao menos alimentar a idéia de um sofrimento novamente.

Talvez se tivesse entrado sem armas no campo de batalha, as coisas teriam tido continuidade, entretanto, o fim, se o mesmo existisse, seria demasiadamente terrífico; pois duas pessoas sem defesas tendem a morrer. Mas minh’alma não me deixou nem ao menos tentar, ela zela pelo meu bem estar, me faz egoísta. Queria ter me doado mais, mas ela não deixou. A razão impediu que todo o meu amor vaza-se para fora, por receio de eu me tornar puramente e unicamente sentimento.

No momento em que eu fitei seus olhos, transbordados em lágrimas, notei o quão e protegido do mundo externo meu coração estava.

Faz parte da vida, renovar-se. Faz parte da vida, aprender com os fatos; e talvez eu tenha aprendido demais; talvez eu tenha sido demasiadamente forte, demasiadamente racional; talvez essa seja uma defesa natural.  

Limito-me a narrar unicamente os fatos. Não ousarei, por enquanto, falar verdadeiramente sobre amor.

Beijos, até a próxima.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Afinal, onde estão as minhas palmas?

Hoje ao despertar, abri o jornal e constatei que minha foto não se encontrava presente na primeira página. Crente da incompetência dos meios jornalísticos impressos, fui procurar informação em outras fontes; então liguei a televisão, e também não testemunhei nenhuma espécie de fato a meu respeito; mas era claro que a minha indicação para o Prêmio Nobel da Paz já deveria ter sido anunciada antes mesmo do meu despertar. Então com a certeza, de que uma multidão extasiada estaria organizando uma ardilosa emboscada para mim, apenas esperando eu transpor os portões de minha casa, para virem desatinados ao meu encontro, com declarações de amor e admiração escritas em faixas e cartazes, decidi sair e caminhar ao ar livre, para dar aos fãs a satisfação de verem-me. Devo confessar que sempre mantive um desejo enrustido de fazer-me celebridade, e já que a oportunidade me havia sido dada, faria uso de todos os artifícios possíveis, com isso os óculos escuros e o boné seriam primordiais para findar meu disfarce; encontrava-me disposta e atenta para qualquer suposto tumulto ou manifestação demasiada de carinho, oriundos a minha honrosa presença.

 Entretanto, o auge de solicitude em relação a minha pessoa, proveio da tentativa mal sucedida de um cão vira-lata; que teve a audácia de tentar manifestar suas necessidades fisiológicas sobre mim, confundindo-me como um banheiro público. Já estava desolada, e sem esperanças de qualquer suposto reconhecimento público. Então, vagando em direção ao meu lar, subitamente sou tomada por um frenesi de vivacidade, por notar algo a tocar minhas costas; prontamente, arranquei de meu bolso um bloco de papel e uma caneta, para principiar a distribuição de meus requisitados autógrafos, quando de veras, o máximo que consegui distribuir, foram endereços, e as horas que assinalavam os ponteiros de meu relógio.

 Mas uma pequena flâmula de esperança ainda queimava no fundo de meu ser, e a certeza de que meus esforços seriam reconhecidos e justamente recompensados, motivava-me com vigor. Tomada por um espírito otimista, deduzi que haveria uma festa surpresa a minha espera, arranjada com total meticulosidade, para que no exato momento em que eu, desavisada, adentrasse meu lar, me surpreende-se com a comitiva de imprensa, aconchegada em meu sofá, esperando-me para iniciarmos as entrevistas.

 Ah, doce ilusão, não havia ninguém a minha espera, nem aquele ser desvairado a quem chamo de cão, a quem alimento fielmente todos os dias e coço-lhe a barriga pulguenta com afago, foi ao meu encontro balançando o seu rabo como de costume, calhorda! Abandonou-me por conta de uma pomba sem graça que pousou na janela e roubou atenção que deveria ser destinada a mim.

Céus! Onde estão as minhas palmas? Quero as minhas flores! Quando irão ligar os holofotes e me darem o prêmio? Eu necessito de motivação!

Querem dizer então, que eu ajudei aquela amável senhora a cruzar aquela movimentada e temerosa rua a troco de nada? Um doce e gentil obrigada não pagará as minhas contas! Onde estão os fãs? Onde está a multidão enlouquecida clamando o meu nome? Onde estão às pessoas aos prantos, agradecendo-me por ser um nobre paradigma de solidariedade e compaixão? Quando chegarão os empresários com os contratos?  Céus! Não dão mais o devido valor a gentis adolescentes, que ajudam senhoras idosas a atravessarem a rua em pacatas cidades do interior? Isso não poderia ter se banalizado! Pessoas de boa índole como eu, estão em escassez no mundo! Deveríamos ser condecoradas com medalhas e estatuetas para homenagear nossas nobres e raras almas. Afinal, onde estão as minhas palmas?!

Findou-se o dia, e com ele veio à frustração acompanhar-me.

 Não compreendia como um gesto tão distinto, tão magnífico, e de tamanha humanidade, como ajudar uma senhora a atravessar a rua, poderia ser ignorado de tal forma por essa sociedade leiga da qual fazemos parte. O tempo utilizado realizando o meu nobre ato, foi em vão? Não posso crer que gastei segundos de minha existência doando-me para outro, para não receber reconhecimento algum, foram segundos importantíssimos gastos a esmo, poderia tê-los utilizado de outras maneiras mais produtivas, como por exemplo, respirando, ou coçando a cabeça, ou até mesmo verificando a temperatura ambiente, sentindo a leve brisa acariciar a minha face. Machucaram-me, pisaram em meu orgulho, jogaram meu ego no chão com força, da mesma maneira como jogam lavagem aos porcos. Sinto-me usada, usada por aquela amável senhora, que só me disse obrigada! Um singelo obrigado, não preencherá a mágoa que a sociedade me causou. Encontro-me embebida em ódio.

O sol emergiu por detrás das montanhas, um novo dia nascia, e minh’alma clamava por motivação. Minha inexorável força caiu por terra, não me restava pudor, ali jazia uma alma digladiada. Certa de que tudo havia se perdido, inclusive meu orgulho, fui caminhar ao ar livre, a espera do sábio tempo, que iria repousar sobre mim e aliviar a minha inerente dor. A bonança de meu andar ajudou-me a esquecer, até chegar o devasto momento em que avisto ao longe a doce senhora que outrora fora a fria causadora de meu sofrimento. A observo com meu olhar de vingança e consigo ver o quão repugnante um caçador pode ser ao esperar sua vítima. Lá estava ela, com aqueles lindos olhos piedosos, aquele sorriso simpático e polido, e aquela aparência afável e convidativa; aquele ser doce e inescrupuloso causou-me náuseas! Estava lá, praticando aquele o seu aprazível e desdenhoso ato de dizer bom dia, com aquela voz terna e meiga, na espreita só esperando alguma ingênua e caridosa alma como a minha, aproximar-se e oferecer ajuda para que depois aquela velhota maligna pudesse fazer a vida do bom samaritano emergir em uma longa e dolorosa decadência mental e motivacional.

Aproximei-me friamente daquela senhora inescrupulosa, que outrora acabara com a minha vida. Ela me sorriu, e me falou bom dia, eu a repugnei naquele instante, mas infelizmente fui traída por meu instinto benevolente, que bradou em meu peito; não pude resistir ao doce olhar da serpente que me seduzia para dentro de suas presas, e mais uma vez a ajudei a atravessar a rua. O percurso foi difícil, por duas vezes ela quase tropeçou, mas eu estava lá, atenta, para segura-la e salvar heroicamente a sua vida. Eu estava esperançosa por reconhecimento. Então chegamos ao outro lado da rua; e ela me sorriu desdentada. Aquela cena parecia sair de dentro de um filme de terror; vi a doce senhora começar a abrir seus lábios em câmera lenta, era nítida a forma de um “O” que os mesmo adotavam ao mesmo tempo em que meu rosto gradativamente contraia-se em ódio. Não! Não um “obrigado”, por favor, suplico-lhe, não posso crer que doei novamente segundos da minha vida a esmo a troco de nada! Sim, ela novamente apunhalou-me pelas costas, e diria a mim apenas um mísero “obrigado”! Achava que com esta atitude errônea poderia enfim concertar as coisas! Para ter o meu perdão o mínimo que ela poderia ter feito, era ter ligado para alguma emissora televisiva, relatando o meu nobre ato. Mal agradecida!

Em câmera lenta, ela começava a proferir o “bri”, enquanto notava que minha face estava embebida em raiva, e se fosse possível eu já teria adquirido uma forma verde e musculosa. Eu a odiava, ela me desmotiva. Quando me dei conta, já estava com a velhota em cima de minha cabeça sustentada pelos meus braços e gritando de horror ela estava pronta para ser lançada entre aqueles carros, e como se nada mais pudesse ser feito, atirei a doce senhora, friamente na frente de um caminhão que naquele exato momento cruzava a rua com rapidez. Ah! Como me sentia plena, que delicia tem o sabor da vingança, estava feito! A causadora de minha frustração estava morta! Sentia-me um novo ser! Por dois minutos pude correr por aquelas calçadas como dois apaixonados correm pelos campos de tulipas, acompanhados de uma trilha sonora melosa ao fundo; eu abraçava as árvores, dançava com os postes de luz, ria para tudo e para todos! A como eu estava feliz! Tão motivada a viver! Sim viver... Atrás das grades! Como se não bastasse toda a imprensa estar ao meu redor para fotografar na integra a ação da policia nacional, imobilizando-me com spray de pimenta e tratando-me como tratam a um terrorista, fui escoltada até a viatura da polícia para ser protegida de uma exacerbada multidão que estava a minha espera, na espreita, só me esperando sair de perto dos civis, para virem ao me encontro com foices e machados, clamando pela minha cabeça; em um ato desesperado, vociferei injurias destinadas as progenitoras dos referidos guardas, que estavam a me imobilizar e algemar no chão. Foi um deleite, todos gritavam o meu nome, seguidos de palavras de baixo calão e ofensas repugnantes, deram-me atenção! Fiz-me celebridade! Minhas fotos estariam nas capas de todos os jornais, e dominariam as manchetes policiais! Vitória!

E assim termina a minha triste história, a história de uma adolescente de bom coração que só gostaria que suas benfeitorias fossem reconhecidas. Enfim, eu peguei prisão perpétua por homicídio doloso contra a doce senhora, e as únicas palmas que pude ouvir foram as da população que se encontrava em um estado de delírio e deslumbramento, oriundos a minha pena, que para a infelicidade geral da nação não foi de morte.

E a vida acontece desta forma, tentamos dar o melhor de nós, e nos doamos há todos, quando se é necessário. Geralmente essas benfeitorias serão recompensadas como você imagina que elas deverão ser. O que em suma, nem sempre é o mais importante. Se fazes qualquer coisa para o bem comum, pode ter certeza que ganhará a melhor recompensa, que é aquela ótima sensação de dever feito, é olhar para si mesmo e respirar aliviado, por saber que você fez tudo o que era humanamente possível e estava ao seu alcance para que as coisas descem certo; e que mesmo que algo tenha falhado, ou não correspondido as expectativas impostas, poder saber que sim, você fez a sua parte, e sua consciência esta em paz. Às vezes a falta de reconhecimento, pode destruir a motivação de um ser, e um ser sem motivação, não irá produzir; então sempre que for possível, reconheça, motive, dê atenção; mas nunca faça nada esperando que isso seja recíproco, não as espere. Pois poderá frustrar-se e consequentemente desmotivar-se, e isso tudo irá transformar-se em um ciclo vicioso, uma pessoa desmotivada, consegue desmotivar a todos os outros. Pode ter certeza que muitas pessoas notam as coisas boas que fazemos, mas elas dificilmente falam, e pode a mesma certeza, que se você tomar alguma atitude errônea, o mundo caíra sobre suas costas, irão falar e julgar.

Mas isso também faz parte da essência da vida, temos que aprimorar as coisas ruins, que necessitam ser mudadas, e se as boas ações não forem recompensadas, você ao menos poderá deitar a cabeça no travesseiro e dormir em paz. Faça o bem, sem esperar ser canonizado. E se por ventura, você salvar o mundo, mas não conseguir ter a sua saudosa salva de palmas, não se aflija, e bata palmas para si mesmo, a sensação de reconhecimento, será tão engrandecedora quanto.

Beijos, até a próxima.

“Ironias a parte, é claro que esta é uma história não verídica; ela serviu unicamente para ilustrar; fiz uso de situações extrema, confesso, mas o objetivo era simples. Espero que fique claro, que não sou uma assassina a sangue frio, nem tampouco uma louca egocêntrica. Coloquei-me como personagem da história, pois não tenho o direito de denegrir a imagem de mais ninguém; eu poderia ter usado um personagem qualquer, mas me soaria um tanto quando impessoal, já que essas questões, de motivação e reconhecimento, são muito comuns a mim.”



sexta-feira, 2 de julho de 2010

Avante Brasil

   Nossos corações batiam descompassados, como se quisessem saltar garganta a fora, juntamente com os gritos que proferiam palavras ofensivas e suplicas desesperadas. Procurava-mos em outros olhares a confiança desprovida de nossas almas, buscando inconscientemente, um certo alguém que ainda alimentasse algum resto de esperança em seu olhar. Olhares falsos, inclusive o meu, diziam que ainda tínhamos salvação, mas era evidente que essa não era uma realidade.

   E como se todas as nossas certezas humanas tivessem se esgotado, nos vimos de mãos dadas, como um ato único de fé, recorrendo à ajuda divida, e suplicando por um milagre. Chegamos a um ponto de tensão tão alto, que não conseguíamos mais fitar aqueles que “previam” nossa terrível derrota com tamanha convicção, sem que pensamentos obscuros em relação a eles dominassem por segundos, nossas mentes aflitas. Aquelas irritantes vuvuzelas tomaram a forma de excelentes objetos de tortura, para os nossos amigos “não-patriotas” em nossos pensamentos malignos.

   Olhares aflitos, indignação, e palavras de baixo calão, dominavam nosso ser, e regiam nosso estado de espírito. O coração pulsava tão ferozmente, e o sangue era bombeado de maneira tão intensa para nossos corpos, que tínhamos a necessidade de ficarmos em pé, para que o sangue circulasse melhor, e para que os gritos de desespero e indignação fossem proferidos de forma límpida e clara. Nossas gargantas ardiam, as vozes saíam com sacrifício, e já se era doloroso gritar a plenos pulmões. Mas não nos importávamos, sentíamos aquele imenso desejo de ver tudo aquilo transformar-se. Estávamos atentos, sentindo que a qualquer momento iríamos gritar “gol” novamente, para então podermos partir para um longo abraço coletivo acalentado por risadas e gritos otimistas. Mas essa também não foi uma realidade. A ansiedade era intensa, e o desprazer evidente em nossas feições. Mãos eram levadas ao rosto, tampando os olhos; cabeças se deitavam sobre a mesa, ignorando a atmosfera irônica que rodeava o local; olhares sem direção eram disparados a todo o momento. E como se nossos desprazeres tivessem sido cronometrados para durarem exatos 48 minutos, aos 47, já levantávamos insossos, fazendo todo o sentimento de raiva e indignação dissipar-se juntamente com o desejo do hexa.

   E tudo se acabou. Acabou-se a esperança, a raiva, a tensão e a ansiedade. Respiramos tranquilos, e vimos que nada mais poderia ser feito; notamos que nossos gritos e nossa energia positiva, já não mudariam mais nada, se é que um dia mudaram.

   Não sei dizer por que fiquei triste, por que fiquei ansiosa ou por que fiquei com raiva, e por que tudo isso passou repentinamente. Não eram nossas vidas, não eram nem se quer nossos amigos ou conhecidos. Não ganharíamos nada com aquele jogo, seja lá qual fosse o resultado; em nada afetaria nossas vidas.
Então por que nos importamos tanto? Por que sofremos? Por que nos entristecemos? Pelo simples fato de ser nosso país? Sim, apenas por isso, unicamente por esse amor enrustido pela pátria, que alimentamos no fundo de nosso peito.

   Vivemos em um país cercado de coisas ruins, como qualquer outro. Temos pessoas passando fome, pessoas que nem se quer tem um teto para morar; E infelizmente as pessoas que deveriam zelar pelo bem de nossa população são as que mais nos “apunhalam pelas costas”, nossos próprios representantes agem com má fé. A violência, já se tornou um fato banalizado; é comum pessoas roubarem casas, roubarem dinheiro, roubarem liberdade, roubarem a vida alheia. O Brasil tem muitas virtudes, mas infelizmente, não possuímos a melhor fama. Ainda somos estereotipados como “a terra do futebol, e do carnaval”, e ficamos tristes por vermos que estão conseguindo roubar até isso de nós. Se tivéssemos mais coisas para nos orgulhar, talvez a dor não fosse tão intensa. Não sofreríamos tanto por perdermos aquilo que nos cativa. Somos um país maravilhoso, rico e diverso. Tenho consciência disso, e tenho orgulho de ter nascido nesse paraíso tropical.

   Não importa se ganhamos ou perdemos, o importante foi ver que todos nós, nos unimos, atrás de um único desejo, o hexa; que infelizmente ficará para a próxima vez. Mas tudo isso valeu a pena. Valeu a pena respirar fundo para não matar amigos que torciam a favor do time adversário; valeu a pena arranhar minhas cordas vocais por gritar a plenos pulmões: “Eu sou brasileira, com muito orgulho, com muito amor”; valeu a pena sentir o quanto eu amo esse país. Não se entristeça Brasil, pois não será o resultado de um jogo, que irá tirar o que mais pertence a esse povo, a garra e a persistência. Sou brasileira sim, e até os que criticam são.  Amo minha pátria e sinto-me abençoada por ter nascido aqui. Não desanimarei, eu creio que o nosso lugar ao sol, já está guardado.

Beijos, até a próxima.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Metamorfoseando-se


Encontro-me absorvida por uma insônia mental, é uma euforia motivante, que transforma minha mente em um emaranhado de idéias soltas; ao mesmo tempo em que luto insistentemente contra a fadiga delinquente que domina meu corpo, e obriga minhas pálpebras a fecharem-se sem o meu consentimento. Tudo parece tão confuso. Meus olhos pensam de tal forma, que tive a impressão de ver estas letras moverem-se como se fizessem uma daquelas antigas brincadeiras de roda.

Entretanto, tenho a consciência de que teria que esperar um novo dia nascer, para que eu pudesse renovar-me junto a ele. Já se passa da meia noite. E neste exato momento, com o livre arbítrio que a mim foi concebido, por intervenção divina, desde os primórdios da humanidade, eu declaro oficialmente concluído o meu repentino estado de epfania.

Declaro-me totalmente liberta de quaisquer tipos de indagações, incertezas, inseguranças, medos, desprazeres, insatisfações e neuroses adolescentes que dominaram meu ser completamente até dias atrás; e para a garantia de melhora do meu ser,  declaro-me isenta de quaisquer tipos de feridas, cicatrizes e traumas psicológicos que por ventura venham apossar-se de mim; e para que toda essa experiência confusa a que fui submetida, não se finalize sem a indenização que é minha por direito, declaro que os bens mais preciosos sejam dados a mim, sendo assim, apossar-me-ei de toda e qualquer experiência de vida, lição de moral, conhecimento, ensinamento e vivência produtiva que a referida situação me impôs.  

Sem mais delongas, declaro a minha metamorfose, completa. E para o bem do meu amor próprio, espero que as coisas voltem à normalidade, pois conviver comigo mesma, já estava quase se transformando em uma epopéia. Meu estado mental a pouco tempo atrás, encontrava-se em perfeita harmonia e sintonia com o mundo, me via em uma plenitude invejável; tinha tudo planejado em minha mente, conhecia-me tão bem, quanto uma mãe conhece as necessidades de seu filho recém nascido. Uniformidade era a palavra que regia meu estado mental, tudo planejado, tudo simplificado, tudo organizado, tudo previsível... Tudo demasiadamente banal; e como uma fênix, o meu típico e adormecido sentimento de insatisfação surge das cinzas, digladiando fugazmente todo o meu equilíbrio mental, desmoronando o meu psíquico como um sopro desmorona um castelo de cartas mal colocado.

E esse mísero sentimento de insatisfação, desencadeou o meu maior conflito interno. Passei por um período doentio de incertezas e divagações. O que outrora eu gostava, já não sabia se me agradaria mais, todos os meus planos para o futuro, que foram construídos com riqueza de detalhes, já estavam fugindo de minhas ambições; não sabia mais o que me irritava e o que me fazia bem, não sabia mais o que eu queria. E como um viajante que perde o seu mapa e consequentemente o seu rumo, me vi estagnada no tempo, sem a minha própria essência. Não me reconhecia mais, via-me tomando atitudes que pareciam ser de desconhecidos, via-me perdida, sem saber para o que recorrer. Estava aflita e desanimada, achando problemas em toda e qualquer coisa existente no mundo. Por semanas o sedentarismo me dominou, o tempo me parecia tão mais proveitoso se nada se fizesse com ele.

Eu sabia que algo de errado estava ocorrendo comigo, só não sabia o que era, pois não tinha clareza o suficiente para refletir sobre isso. Notava que aquele comportamento não era nem de longe comum a mim, e que sem explicações plausíveis minha vida tomou essas proporções drásticas. Era algo absurdo, eu tinha a consciência de que tudo estava errado, mas continuava fazendo errado, sentia-me como um andróide ou algo parecido.

Onde estava minha essência? Em que parte da vida eu a deixei escapar de mim, por que eu me sentia tão vazia, tão confusa? Por que eu não me reconhecia mais?

Mas em um determinado momento, as luzes acenderam-se. Parei, refleti, olhei para dentro de mim mesma e notei que eu estava mudando. E como em um passe de mágica as respostas surgirão. Eu não havia perdido a minha essência, ela estava apenas guardada, metamorfoseando-se. Eu não estava sem rumo, estava apenas preparando-me para achar um novo. E por que tudo isso? É simples, tudo isso por culpa do tempo. Por culpa da renovação automática da natureza humana. O tempo estava passando, o mundo que estava a minha volta estava mudando, e o tempo viu que eu estava ficando para trás, e decidiu que já era chegada a hora certa para que eu me reinventasse. Nada foi modificado, ainda sou a mesma de antes, as coisas apenas aprimoraram-se, os valores morais, as virtudes, as ambições, os sonhos, os pensamentos e a essência. Tudo isso estava me preparando para a vida, moldando-me conforme a forma do mundo, para que posteriormente eu não venha a padecer. Todos nós temos que nos reinventar, já que o tempo nunca para. Aos poucos vou notando, que estou voltando a ser o que era antes, aos poucos sinto minha essência penetrando novamente os meus poros, e adentrando em minha alma, para que eu novamente possa respirar em paz. Sinto agora uma enorme clareza sobre a vida apossando-se de mim, sinto-me mais forte, mais determinada, e o mais importante, sinto-me mais EU do que nunca.

Foi uma experiência e tanto, sei que já passei diversas vezes por coisas assim, mas acho que eu ainda era jovem demais para ter o discernimento sobre a importância de um acontecimento como esse... Ainda bem que me reinventei. Agora me sinto muito plena, por ter voltado, voltado para a vida, e enfim, voltado para mim.

Voltei, por que a vida me autorizou; por que o tempo colaborou, e por que eu não quis deixar nada disso banalizar-se permanentemente.
Voltei por que o frio inverno iniciou-se a pouco, e minha carência existencial também, junto com ele. Voltei por que sei que perdi algo, e espero reencontrar o que me falta aqui; e por que tenho medo de “enferrujar” e perder a prática.
Voltei principalmente por mim, para que eu não esqueça o que realmente me faz bem.

Foi bom ter voltado. Beijos até a próxima!


segunda-feira, 19 de abril de 2010

Onde estava o meu Brasil?

Dei-me conta de como meus olhos são desatentos, de como a minha concepção sobre o que eu realmente sou e onde eu realmente estou é bruscamente equivocada.
Enquanto me preparava para sair de casa, não podia imaginar o choque de cultura a qual eu seria submetida posteriormente. Não, eu não viajei para a região pantaneira do Brasil, nem tampouco fui a Bahia passear em suas lindas praias e comer acarajé. Visitei um lugar que já era “impessoalmente” comum a mim. O Galpão Cultural, em Assis-SP, que sempre esteve lá, na mesma rua, perto de minha casa. No mesmo lugar, por onde eu passava todas as sextas e sábados de bicicleta, mas meus olhos desatentos nunca me deixaram notá-lo verdadeiramente; devo dizer que a única coisa que despertava por segundos a minha atenção em relação a ele era a pintura peculiar que o mesmo possuía.
Lá presenciei apresentações de capoeira, ciranda e outros ritmos puramente brasileiros de uma maneira incomum. Foi uma experiência única! Não digo que nunca tivesse visto anteriormente uma apresentação de capoeira, eu já vi sim, e várias, mas com outros olhos. Ontem vi pessoas que cantavam músicas a plenos pulmões seguindo o ritmo do berimbau: homens, mulheres, senhores e senhoras que faziam o chão vibrar enquanto dançavam freneticamente, ignorando o cansaço de seus corpos no pulsar no atabaque.  Mulheres que pareciam mais mulheres do que nunca, enquanto sambavam no centro de uma roda humana, acalentada por palmas e cantorias incessantes. Homens que alimentavam a curiosidade de nossos olhos, por entre as frestas de uma grande roda, por conta de suas destrezas, eram homens que apoiavam o peso de seus corpos, na sutileza de seus braços. Era a música, era o ritmo, eram os sorrisos, as vozes, as danças, era aquela atmosfera completamente brasileira, que deveria ser inteiramente comum a mim.


 Por algum tempo, me senti deslocada em meio a tudo aquilo, por mais que eu soubesse o que eram aqueles ritmos, ver aquelas pessoas tão comuns a mim dançarem era um estranhamento. Tudo aquilo era Brasil. Tudo aquilo sou eu. Tudo aquilo é você, somos nós.
Às vezes recebemos tantas influências “de fora”, que nos esquecemos do que temos “por dentro”. São influências na música, no modo de agir, de se vestir e de falar, são bombardeios constantes de culturas diferenciadas, são pessoas que perdem a sua verdadeira identidade, que perdem o Brasil que há dentro delas. Assim como eu, que por um longo tempo perdi isso. Eu me esqueci de como somos ricos, de como somos diversos, de como somos como aqueles homens e mulheres, que não precisam da caixa de som mais potente para se divertirem e que, para dançarem a noite inteira, bastava-se apenas se possível, ignorar o desgaste natural de suas gargantas humanas.


Enquanto estava lá sentada, olhando tudo aquilo atônita, e custando para reconhecer que aquilo não deveria ser incomum a mim, perguntava-me onde essas pessoas estavam, pois eu nunca tinha as visto verdadeiramente. Onde estava esse Brasil, que eu só conhecia por televisão? Onde estavam essas pessoas que não deixam a nossa cultura se perder? Onde estava essa música que, involuntariamente, me fazia balançar o pé em seu ritmo e me despertava uma imensa vontade de entrar naquela roda tão animada mesmo sem saber dançar? Perguntava-me como ainda existem pessoas (como eu), que olham algum tipo de acontecimento desses e conseguem sentir tamanho estranhamento. Isso é o Brasil! Dei-me conta de como não conheço verdadeiramente o país onde vivo! Quando digo conhecer, não é conhecer pela televisão ou por reportagens, é conhecer presenciando, sentindo a música e, se por um acaso sentir vontade, poder entrar na roda e ter a sensação de estar completamente em casa, sendo acalentado pelos braços da sua pátria, que nos conhece tão bem.
Questionava-me, porém as respostas eram óbvias. Isso tudo sempre esteve ali, sempre esteve perto de minha casa, participando do meu dia a dia, sem que meus olhos desatentos me deixassem notar. Lugares como o Galpão Cultural, deveriam existir em cada esquina, difundindo a nossa cultura em massa. Não é à toa, que o mesmo se tornou Ponto de Cultura. Sei que aí perto de você também tem um pouco de Brasil. Olhe com atenção. E se puder e sentir vontade, tome esse “choque de cultura” para descobrir realmente quem você é. E o que é o Brasil a que você pertence.

  
Beijos, até a próxima.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Nem todos querem ser "Supers"


   Quando você passa a ser valorizado, as coisas começam a se tornar um tanto quanto caóticas. Até então você era apenas o “você”, e nada mais. Tratavam-lhe da maneira mais normal possível. Vivia a sua vida, normalmente, fazendo suas atividades rotineiras da maneira como sempre fez, e com isso lhe davam o nível neutro de crédito que sempre lhe deram. Até que em uma ocasião inesperada, ocorre algo surpreendente e você se vê forçado a usar sua dose extra de ação, saindo assim, significativamente do seu nível neutro/banalizado e relativamente insignificante de atividades rotineiras.

   Depois de ter esgotado o “estoque de ação” de um mês inteiro em apenas um misero acontecimento, o “você” cai morto no chão, logo após de um surto de “vergonha na cara”, causado pelo choque que os outros tomaram ao notar que sua vida banalizada e decadente tinha se elevado a altos níveis de ação! Com o “você” morto, todos instintivamente começam a lhe chamar pelo nome, com um sorriso absurdamente confiante no rosto; você começa a ser requerido para tudo, seja para resolver conflitos entre um casal de namorados, ou para dar o veredicto final sobre o tempero daquela macarronada de família que acontece todos os domingos, sem grandes finalidades, a não ser colocar as fofocas em dia.

   Você começa a se sentir importante, o supra-sumo da humanidade. Se sente bem, nota-se útil. E aquela sensação inestimável de serenidade lhe vem ao perceber que todos lhe agradecem incessantemente por suas benfeitorias. Mas só por ter reconhecimento, e por ser depositada em você uma dose a mais de responsabilidade e respeito, o seu mundo parece girar de acordo com a sua velocidade. Você começa a ter medo de sair do banheiro com uma toalha de banho em volta do pescoço e lhe confundirem com um super herói. “O Super Fulano de Tal”. Você começa a ir para os almoços de família no domingo com o uma caixinha de temperos (mesmo sem entender nada sobre os mesmos) por que tem certeza que suas habilidades culinárias e seu requintado paladar serão requisitados; até chegar ao ponto de sair na rua carregando um livrinho sobre aconselhamento matrimonial...

   Derrepente você se lembra de que é humano; e seu sentimento de insatisfação vem à tona. Você começa a se sentir importante demais, requisitado demais; e como sabemos tudo o que é demais se torna maçante. Você tenta sumir, você tenta fazer as coisas erradas para que seus “créditos de ação” decaiam. Você tenta de tudo, não fazendo mais nada. Volta a sua banalidade para deixar que aos poucos parem de te sobrecarregar. Mas como sabemos o “você” caiu morto no chão. E nem o “novo você” que passou a ser “super” consegue ressuscitá-lo. Você ainda é o “Super Fulano de Tal” e ninguém está disposto a esquecer disso. Decorrente a sua falta de vontade, todos começam a frustrar-se com você; pois você, digo... “O super Fulano de Tal”, não corresponde mais as expectativas. Não querem que o “você” sobreviva, eles querem alguém para ajudá-los, para compartilhar os problemas, as tarefas. Eles querem o “super”. Então notará que isso tudo já não mais lhe satisfaz. Pois não tem nada de atraente, em excesso de responsabilidade proveniente da comodidade de terceiros... quartos e quintos.
   
   Você cansa de sentir-se sobrecarregado, não se sente mais digno de tanta confiança. Mas a vida é clara: Uma vez que atinge um “alto nível de ação” as consequências são trágicas, caso esse nível decaia e volte a banalidade. O que antes era uma realização vira um pesadelo. Você começa a ter medo de sair do banho com uma toalha em volta do pescoço, e vir alguém por trás e te enforcar com ela por conta da sua irritante normalidade, pois ninguém quer um peso morto ao lado. Tudo bem, essa situação do enforcamento foi extrema (?). Mas é assim, sua moral cai de uma maneira drástica, ninguém mais precisa de você, nos almoços de família, nunca te sobra macarrão (ok, outra situação exagerada, mas serve como um exemplo); e misteriosamente você começa a virar o pivô de brigas matrimoniais. Então você não sabe mais o que fazer, se continuar a ser um peso morto, irão te odiar por isso, se voltar a ser o “Super Fulano de Tal” irão jogar sobre você responsabilidades que você não quer ter! Talvez se nunca tivesse saído do seu nível de normalidade e tentado se arriscar a “subir em seu nível de ação” as coisas poderiam estar... Normais. Mas qual seria a graça? Então sem outra saída, você se vê forçado a “chutar o pau da barraca”, barbarizar, enlouquecer, sair de si! Então como um ato de rebeldia, começa a agir como um louco; sem ligar para mais absolutamente nada que ocorre em sua volta. Você abre a boca e grita milhares de barbaridades para o mundo. Você sabe que não quer ser só mais uma pessoa, não quer ser só “você”. Percebe que ser um peso morto também não lhe é favorável. Mas uma coisa você tem certeza você não quer ser o “Super” para ninguém.

   E assim, muitas pessoas ficam loucas. O excesso de responsabilidade não faz bem a ninguém; banalidade também não; e ser um “nada” muito menos. Notamos que quanto mais o tempo passa, piores as coisas vão se tornando. Sinto diariamente que o peso da vida só cai mais e mais sobre minhas costas, por enquanto consigo aguentar, consigo andar, mas chegará uma hora em que me sentirei sobrecarregada, cansada de tudo. Sei que não poderei “diminuir meu nível de ação” muito menos neutralizá-lo, pois não são só os outros que dependem de meus esforços, mas eu mesma, eu preciso de mim “Super” ou não. Não posso deixar as coisas simplesmente acontecerem.

   Sim irão me sobrecarregar. Sim, eu irei me sobrecarregar. E sim, quando não aguentar mais a pressão externa, eu vou enlouquecer e deixar as coisas tomarem seu rumo, como faço normalmente. Tudo o que é demais, não faz bem a ninguém, muito menos a mim, quando sentir que as coisas estão ficando demasiadamente chatas, fico neutra por um dia, e sem medo das toalhas.

Beijos, até a próxima.

sábado, 6 de março de 2010

Mentiras que curam e verdades que ferem

 

   Aprendemos desde nossa infância que os atos mais desprezíveis que um ser humano pode cometer é mentir, omitir e enganar; e que o ato mais louvável é dizer a verdade.

   Mas que criança nunca quebrou um objeto frágil involuntariamente? E que sem pensar nas consequências se entregou de braços abertos ao mundo da mentira? É nesse exato momento, que o ser humano descobre que a mentira às vezes pode ser a melhor saída para livrar-se das mais diversas situações; e para uma criança, escapar da tão temível “surra”.

   Não estou fazendo nenhum tipo de apologia à mentira, longe de mim; mas já pensaram como o mundo seria se caso todas as pessoas fossem sinceras ao extremo? Verdadeiras como nos ensinam a ser?

   Na sociedade atual, o “principio” que reina, é a diplomacia. Sejamos diplomáticos para viver bem. Calemos nossas vozes para que a paz reine soberana. Ignoremos nossas vontades, para que a harmonia seja absoluta. 

   Existem pessoas que se aventuram, e constantemente dizem “duas” ou “três” verdades, e se obtiverem sorte, serão admiradas, taxadas de verdadeiras, sinceras, e corajosas, caso a sorte não seja uma realidade, elas serão destruídas pelas más línguas, serão chamadas de mal educadas, impulsivas e outras coisas mais. Muitas vezes já me calei, já deixei de me expressar, por achar que a situação não era propicia para expor as minhas vontades, e me arrependi posteriormente; e quantas outras tantas vezes eu falei o que deveria ser dito sem pensar nas consequências, por não querer prolongar aquele sentimento reprimindo dentro de mim... e mesmo assim me arrependi.

   Quantas vezes já não mordemos nossos lábios para que palavras ofensivas não fossem proferidas? Quantas vezes já abrimos à boca, balbuciamos, gaguejamos algo, e as palavras simplesmente não saiam?

   As palavras têm a capacidade de ferir um ser tão ferozmente quanto uma faca feriria; As palavras têm a força de acalentar, tanto quanto um abraço faria; as palavras quando usadas gentilmente podem tudo, e quando ferozmente ditas, também podem.

   Pobre daquele, que não controla a língua e não tem o domínio de suas palavras, e mais pobre ainda aquele que as usa sem nenhum pudor. Talvez a saída seja o bom-senso, dizer o que tem de ser dito da maneira mais verdadeira e clara o possível, mantendo o total controle de suas palavras. Li em certa ocasião, em um daqueles livros de parábolas o seguinte acontecimento:

   Um reino passava por uma terrível guerra, então o rei convocou um de seus melhores profetas para saber o que haveria após toda a guerra, então ele disse:
- O senhor viverá o bastante para ver todos os seus filhos mortos!
O rei instintivamente mandou que enforcassem o seu profeta. Então ele convocou um segundo profeta, que lhe disse:
- Foi concedida ao senhor uma vida tão longa, que passara a geração dos seus filhos e passará a geração de seus netos.
Agradecido, o rei mandou compensa-lo com ouro e prata.

   Não é necessário mentir, nem tampouco omitir, mas sim saber como usar suas palavras. O que ouvir? O que pensar? E principalmente, o que dizer?

Beijos até a próxima.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Olhar os Olhos


As lágrimas escorrem no momento em que você não consegue mais fazer a alma calar-se. No momento em que você se entrega e desiste de lutar contra si mesmo. Por mais que as prenda, por mais que as ignorem, as lágrimas sempre aparecem no canto dos olhos, na espreita, só esperando o momento em que você se entrega, e contra a sua vontade deixa o coração falar, para enfim poderem rolar pela face, sem nenhum pudor. Transmitindo tudo aquilo que sente sem que palavras precisem ser proferidas.

Se quiser saber se um dia alguém verdadeiramente amou, basta olhar-lhe fundo nos olhos, para notar a essência de esperança fluindo discretamente pelos mesmos; também notará aquele leve brilho radiante, que não nega que sua alma outrora trasbordara de felicidade.

Se quiser saber também se um dia alguém amou e se magoou, a ação é a mesma, olhe fundo aos olhos do ser, e perceberá que eles insistem em encarar intensamente os seus, que eles simplesmente se fecham para o interior, tentando parecer firmes e fortes; se vê também aquele leve brilho, que parece já quase acabado, cansado de brilhar, mas que por mais que tente nunca cessará.

Para saber se alguém sente ódio, ou dor; também lhe olhe nos olhos; e notara sempre aquele pequeno acumulo de lágrimas clamando para sair. Geralmente quando não se esta bem, há um terrível orgulho que insiste para que transmitamos que estamos em perfeito estado; mas isso você pode fazer com sua voz, com o seu sorriso, com suas reações, mas jamais com seus olhos.

Os olhos não são manipuláveis, não mudam, não enganam. Eles são os pontos fracos dos fortes; eles nos denunciam no momento em que mais precisamos de sua lealdade; eles são carentes; eles necessitam de atenção; eles não poupam esforços para dizer ao mundo se você está feliz ou triste; eles não se importam com a sua ética; eles menosprezam o seu orgulho; eles gargalham da sua individualidade.

Eles são traiçoeiros, mas até do que a pobre língua, que facilmente consegue ser manipulada pelo cérebro. Os olhos constantemente te traem; os olhos constantemente seduzem; os olhos constantemente machucam. Por mais que usemos “máscaras” de sorrisos e risadas, os buracos dos olhos sempre estarão lá, abertos, para quem quiser desvendá-los.

Como dizem, “Os olhos são as janelas para a alma.”, e eu digo: a face é apenas uma cortina transparente que não serve para nada; e que não consegue influenciar em nada que se passa na “janela”. Os olhos são as partes materiais da alma. Podemos esconder nossos sentimentos, calar nossos desejos, mas jamais o olhar. Eles sempre estarão lá, para mostrar que seu sorriso de torna falso caso sua alma esteja embebida de ódio; para provar que a sua risada é a mais verdadeira, pelo simples fato deles facilmente deixarem vazar a felicidade que transborda em seu coração; eles sempre estarão lá, para dizer a verdade, para serem mais que sinceros; os olhos nunca mentem.

É necessário enxergar com a sua alma para entender a de outros. Nada adiantará olhar simplesmente por olhar, em suma é necessário observa-se; caso o contrário não verá nada além e uma íris e uma pálpebra móvel que insiste em abrir e fechar constantemente.
E que se abram os olhos que verdadeiramente sabem enxergar além do que se vê; e que se fechem aqueles que preferem ignorar o que uma alma quer dizer.

Beijos, até a próxima.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Amizades independem de cores



Mudança é a evidência clara de que o tempo involuntariamente passa. Vai bem mais além de nossas vontades saber ou não se as mudanças serão positivas ou negativas, mas creio que isso é a essência da vida, o tempo, as mudanças, e etc.

O problema é quando não notamos essas mudanças ocorrendo gradativamente, e quando vamos nos dar conta, a mudança já é completa e eficaz, fazendo o ser alterado ficar irreconhecível aos nossos olhos.

Se tem uma coisa que me faz bem nessa vida é cultivar amizades a longo prazo. Não me preocupo em ter vários amigos, mas sim em fortalecer e estreitar os laços de amizades já existentes. E o mais incrível é que, mesmo sem percebermos, aprendemos a conhecer muito bem aqueles que nos rodeiam; então notamos que seus atos já se tornam previsíveis; suas idéias e pensamentos se tornam familiares; sua voz se torna distinguível no meio de uma grande multidão; sua presença se torna necessária para o nosso próprio bem estar.

Quanto mais conhecemos alguém, mais transparente aquela pessoa se torna. Por isso, é sempre bom fortalecer os laços de amizade, para não correr o risco de por ventura frustrar-se, ou seja, olhar para um alguém a quem achava que conhecia e já não mais reconhecer; simplesmente não conseguir “adivinhar” quais seriam suas ações, qual é o seu pensamento, se aquele ser a quem outrora chamava de amigo, ainda possuiria os mesmos valores morais que se encaixavam perfeitamente com os seus, ou ainda se não se parecessem em nada. Independente do que seja, ficar na dúvida se o que fazia com que o amasse tanto, a ponto de chamar de amigo, ainda estaria vivo dentro dele.

Ultimamente, tenho me deparado muito com esse tipo de acontecimento. Não sei se sou eu que estou mais perceptiva a mudanças, ou se por ventura parei no tempo, e só agora me dei conta de que as coisas realmente mudaram de forma significativa. A única coisa que sei é que nada mais é como antes, nunca nada é como antes. O segundo anterior já é diferente do segundo presente, e assim consecutivamente, mas essas mudanças não são tão complexas como as que eu tenho me deparado, pelo contrário, essas pequenas mudanças já são mais que rotineiras.

É extremamente inquietante ver a pessoa com quem outrora você jurava dizer que “azul” era lindo, agora dizer que “azul” é sempre graça. Anteriormente, você teria a certeza que se precisasse comprar um presente daria a ela algo “azul”, ou até mesmo “azul-celeste”, ou arriscaria em um forte “azul-marinho”, porque saberia que ela iria gostar; e agora se vê em uma saia justa, por não ter certeza de nada.

Talvez a única culpada por essa inquietação seja eu mesma, por notar que as coisas saíram de meu controle (uma fraqueza? Sim, confesso.), ver que eu não posso prever mais nada, nem ao menos uma ingênua dedução, não pelo medo de deduzir, arriscar, literalmente “chutar”, mas por acabar “chutando” e arriscar-me a errar feio, enfraquecendo assim aquela amada e velha amizade. Então irá ser triste perceber que você não sabe o que dar de presente para o amigo - tem medo de ele achar o “azul-celeste” claro demais, e o “azul-marinho” escuro demais -, e se ver forçada a tentar agradá-lo com um verde e posteriormente acabar frustrando-se ao descobrir que ele agora abomina as cores frias e, sorrateiramente, passou para o time das cores quentes; dando assim mais valor ao presente de outro desconhecido, pelo simples fato do tal objeto ter um tom de “vermelho-radiante” totalmente contrário as suas variações de “azul-sem graça”. Essa foi uma situação hipotética, é claro.

Mas essa é a verdade, o medo do tempo passar, de tudo mudar, inclusive as pessoas me amedrontam. Dar-me conta de que a minha forma de pensar ou agir e até mesmo de dar presentes está meio deslocada ou até lenta demais para se adaptar às mudanças exteriores.

Sei que também mudei, que também posso estar irreconhecível para alguns, mas sabemos que é mais complicado adaptar-nos às mudanças de outros, do que ver os outros se adaptarem as nossas; egocentrismo e comodismo tipicamente humanos? Sim, é claro.

As mudanças acontecem constantemente e sempre irão acontecer, independente de nossas vontades ou de nossos esforços. Mas tem aqueles tipos de mudanças que são tão nítidas, como por exemplo, a troca das bonecas pela maquiagem; um exemplo bobo, eu sei, mas faz sentido. Esse tipo de mudança acontece “junto”, em parceria. Para a maioria das garotas, as bonecas são “jogadas no baú” logo na pré-adolescência, da mesma forma como ocorrem com os carrinhos, para os garotos. Esse tipo de mudanças previsíveis não assustam, pelo contrário, confortam. Faz com que você sinta que os seus amigos estão todos ali, juntos. Compartilhando as mudanças, as fases da vida e sentindo que as mudanças ocorrem com todos, inclusive com si mesmo.

Não sou contra mudanças, acho que elas são extremamente necessárias. O remédio para evitar esse tipo de frustração, de não reconhecer seus amigos, é simples: estar sempre perto, mostrar que mesmo com o tempo passando, vocês ainda se gostam e, independe de um gostar de azul e o outro de vermelho, saberem que ambos se amam incondicionalmente, que para ser amigo não é necessário ser igual, mas sim, estar junto, nem que seja de longe.



Dedico esse post, a todos aqueles a quem amo incondicionalmente e que tenho o orgulho de chamar de amigos.



Beijos, até a próxima.