sábado, 23 de janeiro de 2010

Amizades independem de cores



Mudança é a evidência clara de que o tempo involuntariamente passa. Vai bem mais além de nossas vontades saber ou não se as mudanças serão positivas ou negativas, mas creio que isso é a essência da vida, o tempo, as mudanças, e etc.

O problema é quando não notamos essas mudanças ocorrendo gradativamente, e quando vamos nos dar conta, a mudança já é completa e eficaz, fazendo o ser alterado ficar irreconhecível aos nossos olhos.

Se tem uma coisa que me faz bem nessa vida é cultivar amizades a longo prazo. Não me preocupo em ter vários amigos, mas sim em fortalecer e estreitar os laços de amizades já existentes. E o mais incrível é que, mesmo sem percebermos, aprendemos a conhecer muito bem aqueles que nos rodeiam; então notamos que seus atos já se tornam previsíveis; suas idéias e pensamentos se tornam familiares; sua voz se torna distinguível no meio de uma grande multidão; sua presença se torna necessária para o nosso próprio bem estar.

Quanto mais conhecemos alguém, mais transparente aquela pessoa se torna. Por isso, é sempre bom fortalecer os laços de amizade, para não correr o risco de por ventura frustrar-se, ou seja, olhar para um alguém a quem achava que conhecia e já não mais reconhecer; simplesmente não conseguir “adivinhar” quais seriam suas ações, qual é o seu pensamento, se aquele ser a quem outrora chamava de amigo, ainda possuiria os mesmos valores morais que se encaixavam perfeitamente com os seus, ou ainda se não se parecessem em nada. Independente do que seja, ficar na dúvida se o que fazia com que o amasse tanto, a ponto de chamar de amigo, ainda estaria vivo dentro dele.

Ultimamente, tenho me deparado muito com esse tipo de acontecimento. Não sei se sou eu que estou mais perceptiva a mudanças, ou se por ventura parei no tempo, e só agora me dei conta de que as coisas realmente mudaram de forma significativa. A única coisa que sei é que nada mais é como antes, nunca nada é como antes. O segundo anterior já é diferente do segundo presente, e assim consecutivamente, mas essas mudanças não são tão complexas como as que eu tenho me deparado, pelo contrário, essas pequenas mudanças já são mais que rotineiras.

É extremamente inquietante ver a pessoa com quem outrora você jurava dizer que “azul” era lindo, agora dizer que “azul” é sempre graça. Anteriormente, você teria a certeza que se precisasse comprar um presente daria a ela algo “azul”, ou até mesmo “azul-celeste”, ou arriscaria em um forte “azul-marinho”, porque saberia que ela iria gostar; e agora se vê em uma saia justa, por não ter certeza de nada.

Talvez a única culpada por essa inquietação seja eu mesma, por notar que as coisas saíram de meu controle (uma fraqueza? Sim, confesso.), ver que eu não posso prever mais nada, nem ao menos uma ingênua dedução, não pelo medo de deduzir, arriscar, literalmente “chutar”, mas por acabar “chutando” e arriscar-me a errar feio, enfraquecendo assim aquela amada e velha amizade. Então irá ser triste perceber que você não sabe o que dar de presente para o amigo - tem medo de ele achar o “azul-celeste” claro demais, e o “azul-marinho” escuro demais -, e se ver forçada a tentar agradá-lo com um verde e posteriormente acabar frustrando-se ao descobrir que ele agora abomina as cores frias e, sorrateiramente, passou para o time das cores quentes; dando assim mais valor ao presente de outro desconhecido, pelo simples fato do tal objeto ter um tom de “vermelho-radiante” totalmente contrário as suas variações de “azul-sem graça”. Essa foi uma situação hipotética, é claro.

Mas essa é a verdade, o medo do tempo passar, de tudo mudar, inclusive as pessoas me amedrontam. Dar-me conta de que a minha forma de pensar ou agir e até mesmo de dar presentes está meio deslocada ou até lenta demais para se adaptar às mudanças exteriores.

Sei que também mudei, que também posso estar irreconhecível para alguns, mas sabemos que é mais complicado adaptar-nos às mudanças de outros, do que ver os outros se adaptarem as nossas; egocentrismo e comodismo tipicamente humanos? Sim, é claro.

As mudanças acontecem constantemente e sempre irão acontecer, independente de nossas vontades ou de nossos esforços. Mas tem aqueles tipos de mudanças que são tão nítidas, como por exemplo, a troca das bonecas pela maquiagem; um exemplo bobo, eu sei, mas faz sentido. Esse tipo de mudança acontece “junto”, em parceria. Para a maioria das garotas, as bonecas são “jogadas no baú” logo na pré-adolescência, da mesma forma como ocorrem com os carrinhos, para os garotos. Esse tipo de mudanças previsíveis não assustam, pelo contrário, confortam. Faz com que você sinta que os seus amigos estão todos ali, juntos. Compartilhando as mudanças, as fases da vida e sentindo que as mudanças ocorrem com todos, inclusive com si mesmo.

Não sou contra mudanças, acho que elas são extremamente necessárias. O remédio para evitar esse tipo de frustração, de não reconhecer seus amigos, é simples: estar sempre perto, mostrar que mesmo com o tempo passando, vocês ainda se gostam e, independe de um gostar de azul e o outro de vermelho, saberem que ambos se amam incondicionalmente, que para ser amigo não é necessário ser igual, mas sim, estar junto, nem que seja de longe.



Dedico esse post, a todos aqueles a quem amo incondicionalmente e que tenho o orgulho de chamar de amigos.



Beijos, até a próxima.