quinta-feira, 25 de março de 2010

Nem todos querem ser "Supers"


   Quando você passa a ser valorizado, as coisas começam a se tornar um tanto quanto caóticas. Até então você era apenas o “você”, e nada mais. Tratavam-lhe da maneira mais normal possível. Vivia a sua vida, normalmente, fazendo suas atividades rotineiras da maneira como sempre fez, e com isso lhe davam o nível neutro de crédito que sempre lhe deram. Até que em uma ocasião inesperada, ocorre algo surpreendente e você se vê forçado a usar sua dose extra de ação, saindo assim, significativamente do seu nível neutro/banalizado e relativamente insignificante de atividades rotineiras.

   Depois de ter esgotado o “estoque de ação” de um mês inteiro em apenas um misero acontecimento, o “você” cai morto no chão, logo após de um surto de “vergonha na cara”, causado pelo choque que os outros tomaram ao notar que sua vida banalizada e decadente tinha se elevado a altos níveis de ação! Com o “você” morto, todos instintivamente começam a lhe chamar pelo nome, com um sorriso absurdamente confiante no rosto; você começa a ser requerido para tudo, seja para resolver conflitos entre um casal de namorados, ou para dar o veredicto final sobre o tempero daquela macarronada de família que acontece todos os domingos, sem grandes finalidades, a não ser colocar as fofocas em dia.

   Você começa a se sentir importante, o supra-sumo da humanidade. Se sente bem, nota-se útil. E aquela sensação inestimável de serenidade lhe vem ao perceber que todos lhe agradecem incessantemente por suas benfeitorias. Mas só por ter reconhecimento, e por ser depositada em você uma dose a mais de responsabilidade e respeito, o seu mundo parece girar de acordo com a sua velocidade. Você começa a ter medo de sair do banheiro com uma toalha de banho em volta do pescoço e lhe confundirem com um super herói. “O Super Fulano de Tal”. Você começa a ir para os almoços de família no domingo com o uma caixinha de temperos (mesmo sem entender nada sobre os mesmos) por que tem certeza que suas habilidades culinárias e seu requintado paladar serão requisitados; até chegar ao ponto de sair na rua carregando um livrinho sobre aconselhamento matrimonial...

   Derrepente você se lembra de que é humano; e seu sentimento de insatisfação vem à tona. Você começa a se sentir importante demais, requisitado demais; e como sabemos tudo o que é demais se torna maçante. Você tenta sumir, você tenta fazer as coisas erradas para que seus “créditos de ação” decaiam. Você tenta de tudo, não fazendo mais nada. Volta a sua banalidade para deixar que aos poucos parem de te sobrecarregar. Mas como sabemos o “você” caiu morto no chão. E nem o “novo você” que passou a ser “super” consegue ressuscitá-lo. Você ainda é o “Super Fulano de Tal” e ninguém está disposto a esquecer disso. Decorrente a sua falta de vontade, todos começam a frustrar-se com você; pois você, digo... “O super Fulano de Tal”, não corresponde mais as expectativas. Não querem que o “você” sobreviva, eles querem alguém para ajudá-los, para compartilhar os problemas, as tarefas. Eles querem o “super”. Então notará que isso tudo já não mais lhe satisfaz. Pois não tem nada de atraente, em excesso de responsabilidade proveniente da comodidade de terceiros... quartos e quintos.
   
   Você cansa de sentir-se sobrecarregado, não se sente mais digno de tanta confiança. Mas a vida é clara: Uma vez que atinge um “alto nível de ação” as consequências são trágicas, caso esse nível decaia e volte a banalidade. O que antes era uma realização vira um pesadelo. Você começa a ter medo de sair do banho com uma toalha em volta do pescoço, e vir alguém por trás e te enforcar com ela por conta da sua irritante normalidade, pois ninguém quer um peso morto ao lado. Tudo bem, essa situação do enforcamento foi extrema (?). Mas é assim, sua moral cai de uma maneira drástica, ninguém mais precisa de você, nos almoços de família, nunca te sobra macarrão (ok, outra situação exagerada, mas serve como um exemplo); e misteriosamente você começa a virar o pivô de brigas matrimoniais. Então você não sabe mais o que fazer, se continuar a ser um peso morto, irão te odiar por isso, se voltar a ser o “Super Fulano de Tal” irão jogar sobre você responsabilidades que você não quer ter! Talvez se nunca tivesse saído do seu nível de normalidade e tentado se arriscar a “subir em seu nível de ação” as coisas poderiam estar... Normais. Mas qual seria a graça? Então sem outra saída, você se vê forçado a “chutar o pau da barraca”, barbarizar, enlouquecer, sair de si! Então como um ato de rebeldia, começa a agir como um louco; sem ligar para mais absolutamente nada que ocorre em sua volta. Você abre a boca e grita milhares de barbaridades para o mundo. Você sabe que não quer ser só mais uma pessoa, não quer ser só “você”. Percebe que ser um peso morto também não lhe é favorável. Mas uma coisa você tem certeza você não quer ser o “Super” para ninguém.

   E assim, muitas pessoas ficam loucas. O excesso de responsabilidade não faz bem a ninguém; banalidade também não; e ser um “nada” muito menos. Notamos que quanto mais o tempo passa, piores as coisas vão se tornando. Sinto diariamente que o peso da vida só cai mais e mais sobre minhas costas, por enquanto consigo aguentar, consigo andar, mas chegará uma hora em que me sentirei sobrecarregada, cansada de tudo. Sei que não poderei “diminuir meu nível de ação” muito menos neutralizá-lo, pois não são só os outros que dependem de meus esforços, mas eu mesma, eu preciso de mim “Super” ou não. Não posso deixar as coisas simplesmente acontecerem.

   Sim irão me sobrecarregar. Sim, eu irei me sobrecarregar. E sim, quando não aguentar mais a pressão externa, eu vou enlouquecer e deixar as coisas tomarem seu rumo, como faço normalmente. Tudo o que é demais, não faz bem a ninguém, muito menos a mim, quando sentir que as coisas estão ficando demasiadamente chatas, fico neutra por um dia, e sem medo das toalhas.

Beijos, até a próxima.

sábado, 6 de março de 2010

Mentiras que curam e verdades que ferem

 

   Aprendemos desde nossa infância que os atos mais desprezíveis que um ser humano pode cometer é mentir, omitir e enganar; e que o ato mais louvável é dizer a verdade.

   Mas que criança nunca quebrou um objeto frágil involuntariamente? E que sem pensar nas consequências se entregou de braços abertos ao mundo da mentira? É nesse exato momento, que o ser humano descobre que a mentira às vezes pode ser a melhor saída para livrar-se das mais diversas situações; e para uma criança, escapar da tão temível “surra”.

   Não estou fazendo nenhum tipo de apologia à mentira, longe de mim; mas já pensaram como o mundo seria se caso todas as pessoas fossem sinceras ao extremo? Verdadeiras como nos ensinam a ser?

   Na sociedade atual, o “principio” que reina, é a diplomacia. Sejamos diplomáticos para viver bem. Calemos nossas vozes para que a paz reine soberana. Ignoremos nossas vontades, para que a harmonia seja absoluta. 

   Existem pessoas que se aventuram, e constantemente dizem “duas” ou “três” verdades, e se obtiverem sorte, serão admiradas, taxadas de verdadeiras, sinceras, e corajosas, caso a sorte não seja uma realidade, elas serão destruídas pelas más línguas, serão chamadas de mal educadas, impulsivas e outras coisas mais. Muitas vezes já me calei, já deixei de me expressar, por achar que a situação não era propicia para expor as minhas vontades, e me arrependi posteriormente; e quantas outras tantas vezes eu falei o que deveria ser dito sem pensar nas consequências, por não querer prolongar aquele sentimento reprimindo dentro de mim... e mesmo assim me arrependi.

   Quantas vezes já não mordemos nossos lábios para que palavras ofensivas não fossem proferidas? Quantas vezes já abrimos à boca, balbuciamos, gaguejamos algo, e as palavras simplesmente não saiam?

   As palavras têm a capacidade de ferir um ser tão ferozmente quanto uma faca feriria; As palavras têm a força de acalentar, tanto quanto um abraço faria; as palavras quando usadas gentilmente podem tudo, e quando ferozmente ditas, também podem.

   Pobre daquele, que não controla a língua e não tem o domínio de suas palavras, e mais pobre ainda aquele que as usa sem nenhum pudor. Talvez a saída seja o bom-senso, dizer o que tem de ser dito da maneira mais verdadeira e clara o possível, mantendo o total controle de suas palavras. Li em certa ocasião, em um daqueles livros de parábolas o seguinte acontecimento:

   Um reino passava por uma terrível guerra, então o rei convocou um de seus melhores profetas para saber o que haveria após toda a guerra, então ele disse:
- O senhor viverá o bastante para ver todos os seus filhos mortos!
O rei instintivamente mandou que enforcassem o seu profeta. Então ele convocou um segundo profeta, que lhe disse:
- Foi concedida ao senhor uma vida tão longa, que passara a geração dos seus filhos e passará a geração de seus netos.
Agradecido, o rei mandou compensa-lo com ouro e prata.

   Não é necessário mentir, nem tampouco omitir, mas sim saber como usar suas palavras. O que ouvir? O que pensar? E principalmente, o que dizer?

Beijos até a próxima.