segunda-feira, 19 de abril de 2010

Onde estava o meu Brasil?

Dei-me conta de como meus olhos são desatentos, de como a minha concepção sobre o que eu realmente sou e onde eu realmente estou é bruscamente equivocada.
Enquanto me preparava para sair de casa, não podia imaginar o choque de cultura a qual eu seria submetida posteriormente. Não, eu não viajei para a região pantaneira do Brasil, nem tampouco fui a Bahia passear em suas lindas praias e comer acarajé. Visitei um lugar que já era “impessoalmente” comum a mim. O Galpão Cultural, em Assis-SP, que sempre esteve lá, na mesma rua, perto de minha casa. No mesmo lugar, por onde eu passava todas as sextas e sábados de bicicleta, mas meus olhos desatentos nunca me deixaram notá-lo verdadeiramente; devo dizer que a única coisa que despertava por segundos a minha atenção em relação a ele era a pintura peculiar que o mesmo possuía.
Lá presenciei apresentações de capoeira, ciranda e outros ritmos puramente brasileiros de uma maneira incomum. Foi uma experiência única! Não digo que nunca tivesse visto anteriormente uma apresentação de capoeira, eu já vi sim, e várias, mas com outros olhos. Ontem vi pessoas que cantavam músicas a plenos pulmões seguindo o ritmo do berimbau: homens, mulheres, senhores e senhoras que faziam o chão vibrar enquanto dançavam freneticamente, ignorando o cansaço de seus corpos no pulsar no atabaque.  Mulheres que pareciam mais mulheres do que nunca, enquanto sambavam no centro de uma roda humana, acalentada por palmas e cantorias incessantes. Homens que alimentavam a curiosidade de nossos olhos, por entre as frestas de uma grande roda, por conta de suas destrezas, eram homens que apoiavam o peso de seus corpos, na sutileza de seus braços. Era a música, era o ritmo, eram os sorrisos, as vozes, as danças, era aquela atmosfera completamente brasileira, que deveria ser inteiramente comum a mim.


 Por algum tempo, me senti deslocada em meio a tudo aquilo, por mais que eu soubesse o que eram aqueles ritmos, ver aquelas pessoas tão comuns a mim dançarem era um estranhamento. Tudo aquilo era Brasil. Tudo aquilo sou eu. Tudo aquilo é você, somos nós.
Às vezes recebemos tantas influências “de fora”, que nos esquecemos do que temos “por dentro”. São influências na música, no modo de agir, de se vestir e de falar, são bombardeios constantes de culturas diferenciadas, são pessoas que perdem a sua verdadeira identidade, que perdem o Brasil que há dentro delas. Assim como eu, que por um longo tempo perdi isso. Eu me esqueci de como somos ricos, de como somos diversos, de como somos como aqueles homens e mulheres, que não precisam da caixa de som mais potente para se divertirem e que, para dançarem a noite inteira, bastava-se apenas se possível, ignorar o desgaste natural de suas gargantas humanas.


Enquanto estava lá sentada, olhando tudo aquilo atônita, e custando para reconhecer que aquilo não deveria ser incomum a mim, perguntava-me onde essas pessoas estavam, pois eu nunca tinha as visto verdadeiramente. Onde estava esse Brasil, que eu só conhecia por televisão? Onde estavam essas pessoas que não deixam a nossa cultura se perder? Onde estava essa música que, involuntariamente, me fazia balançar o pé em seu ritmo e me despertava uma imensa vontade de entrar naquela roda tão animada mesmo sem saber dançar? Perguntava-me como ainda existem pessoas (como eu), que olham algum tipo de acontecimento desses e conseguem sentir tamanho estranhamento. Isso é o Brasil! Dei-me conta de como não conheço verdadeiramente o país onde vivo! Quando digo conhecer, não é conhecer pela televisão ou por reportagens, é conhecer presenciando, sentindo a música e, se por um acaso sentir vontade, poder entrar na roda e ter a sensação de estar completamente em casa, sendo acalentado pelos braços da sua pátria, que nos conhece tão bem.
Questionava-me, porém as respostas eram óbvias. Isso tudo sempre esteve ali, sempre esteve perto de minha casa, participando do meu dia a dia, sem que meus olhos desatentos me deixassem notar. Lugares como o Galpão Cultural, deveriam existir em cada esquina, difundindo a nossa cultura em massa. Não é à toa, que o mesmo se tornou Ponto de Cultura. Sei que aí perto de você também tem um pouco de Brasil. Olhe com atenção. E se puder e sentir vontade, tome esse “choque de cultura” para descobrir realmente quem você é. E o que é o Brasil a que você pertence.

  
Beijos, até a próxima.