quarta-feira, 30 de março de 2011

Mariposas

     


Não consigo entender a escuridão, não consigo compreendê-la, nem tampouco acostumar-me com ela. Busco a luz de uma maneira tão desesperada, que me esqueço por que ela momentaneamente havia se apagado. Tenho medo dos meus óculos embaçarem, ou da noite chegar; gosto do dia, gosto dos olhos abertos. É necessário que eu aprenda a permanecer na escuridão, sem ter que buscar desesperadamente qualquer saída ou feixe de luz.

    É tão mais fácil se banhar de gloriosas lembranças passadas, ao ter que encarar a rispidez e inconsequência das expectativas futuras. Quem me dera poder viver o mesmo segundo mais de uma vez. Quem me dera poder retroceder o relógio e fazer de meus constantes erros apenas meras aprendizagens, treinamentos, distrações. Quem me dera o caminho não fosse múltiplo, quem me dera ser a dona da árvore mais alta, e de lá de cima poder ver a tudo e a todos; ter visão de águia ter a certeza de todas as veredas. Talvez se fosse dona de uma sabedoria gigantesca e de uma alma menos humana, pudesse ter mais certezas do que dúvidas. Agradeço a Deus todos os dias por não ter nascido cega, pois se tenho medo do que não consigo ver de olhos abertos, morreria se estivesse para sempre com os olhos fechados.

    Há uma Luz que me guia, uma Luz que me aquece, uma Luz que se acende e me mostra o caminho, mas as vezes Ela se esconde e pede para que eu vá de olhos fechados; Ela me testa, mas ainda sou mariposa demais, não consigo ficar muito sem o clarão que me cega, ainda sou como uma criança que está aprendendo a andar e tem medo do grande escuro da vida, das grandes incertezas do futuro.

    Sempre busquei a coragem, mas às vezes é tão necessário temer. O que seria de mim sem medo, o que seria de mim sem minhas incertezas? Se fosse dona da sabedoria que só é atribuída a Ele, do que me adiantaria viver? Do que me adiantaria estar nesse mundo, já sendo conhecedora de todos os mistérios? O escuro me amedronta, mas se tudo fosse demasiadamente claro, me arderiam demais os olhos. Como saberia quão boa é a luz se nunca tivesse permanecido na penumbra? Como saberia quão quentes são os raios de sol, se eu nunca tivesse experimentado um pouco das noites gélidas? Do que me adiantaria ter milhares de perguntas se me fossem dadas de bom grado todas as respostas?

    O que seria do ser humano sem todas as suas incertezas, incapacidades e inconsequências? O que é a vida se não uma incessante busca por respostas? Sou apenas mais um pedaço de carne ambulante, que anda e que chora, que ri, que ama e que teme. Sou apenas mais um ser imperfeito, dentre outros muitos venho por ser às vezes o mais impávido, e noutras, o mais covarde; mas acima de tudo, sou um ser errante, que assume a sua incapacidade e se coloca em seu humilde lugar como mera criatura decrépita. Reconheço as minhas fraquezas, e orgulho-me delas, por ver que estou mais humana do que nunca, e me sinto feliz assim, pois o homem foi uma criação perfeita de Deus.

Beijos, até a próxima.